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Tragédia não impediu o sonho de Karen

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Atualizado em 18/08/2014 - 01:04

Postado por Ana Laranjeira      
Fonte: Folha Dirigida

Uma vida sem estímulo e com poucas expectativas profissionais nunca agradou a Karen Neves, 23 anos, sargento da Força Aérea Brasileira (FAB) – uma niteroiense com energia e personalidade de sobra para trilhar todos os caminhos que desejar. Aos 17 anos, ela não hesitou em optar pela carreira militar. O que não imaginava é que essa decisão viria acompanhada de fases difíceis, choro e, enfim, da tão esperada vitória.

“Sou nascida e criada em Niterói (Região Metropolitana do Rio de Janeiro) e de origem humilde. Sempre fui uma criança normal, embora com sonhos que fugiam à normalidade. Sempre trabalhei, e devido às condições financeiras, estudava em colégio público. O que nunca me abandonou foi a certeza de que queria um destino diferente, não só para mim, mas para minha família. Nunca reneguei os estudos, e todas as minhas dificuldades enfrentadas no colégio eram superadas pela vontade de “ser alguém”. Tirava boas notas e carregava o fardo prazeroso de ser uma boa aluna”, conta.

Em 2007 a jovem concluiu o ensino médio. Logo depois, ficou rodeada de dúvidas que toda menina enfrenta nessa época. Que profissão exercer? Será que serei realizada profissional e financeiramente? Karen tinha muitos sonhos e poucas certezas, mas uma delas era ingressar na carreira militar. Não mediu o tamanho do seu sonho, tampouco os obstáculos, principalmente quando percebeu que a distância entre o sonho e a aprovação era menor do que imaginava…

“Ser militar sempre foi meu grande sonho. Resolvi pesquisar sobre a profissão, áreas que me atraíam e principalmente as formas de ingresso, para saber se eu tinha a possibilidade de correr atrás disso. Em meio a tantas motivações, o fator dinheiro desmotiva qualquer um. Meus pais e meu namorado foram únicos e maravilhosos nessa época”, lembra. A dificuldade financeira era o que a impedia de concretizar seu sonho. A família e o namorado foram essenciais para ajudá-la nessa difícil caminhada. Com isso, não mediu esforços, e estudava dia e noite. “Meus pais e meu namorado dividiram a parcela do curso. Minha rotina de estudos era igual à de todo concurseiro que sonha com a aprovação e faz de tudo para antingir tal objetivo.”

No meio do caminho surgiu um novo edital, que veio a aumentar a rotina de estudos da concurseira. E foi precisamente disso – dos azares que fazem a gente tropeçar, das pegadinhas da rotina – que Karen tirou a inspiração para a preparação para a prova que se aproximava. “Fiquei triste e desesperada. A data da prova da FAB era no meio do ano. Eu tive de correr contra o tempo, e fiz como se fosse uma extensão do preparatório, fiz um módulo a mais, e quem pagou foi meu namorado, essa foi a primeira dificuldade. Quando se aproximava a prova, foi muita correria e, para piorar, eu não tinha a matéria toda. Peguei as gravações das aulas e corri contra o tempo”, acrescenta.

Na semana da prova, o namorado, Diego, que a ajudava nos estudos, além de ser grande companheiro, sofreu uma tentativa de assalto. “O Diego ficou uma semana internado na UTI. Foi sem dúvida um dos piores momentos da minha vida. Minha última preocupação era estudar, ia todo dia para o hospital, e na véspera da prova ele faleceu. A prova era sábado, ele faleceu na sexta”, conta, emocionada. Motivada por uma força maior, Karen conseguiu acordar no sábado e ir fazer a prova. Mais adiante, ela receberia uma notícia surpreendente para acalentar e trazer alegria novamente ao seu coração.

Forma de agradecer
“No sábado acordei sozinha e me arrumei, meus pais perceberam que eu tinha levantado e foram me perguntar o que eu ia fazer, eles falaram para eu descansar, e resolvi fazer a prova assim mesmo. Um mês depois, uma amiga me ligou avisando que eu tinha passado. Quando desliguei o telefone, não sabia se era verdade. Eu não conseguia acreditar que alcancei meu objetivo, apesar de tudo, todo o choro, todo o sofrimento, todas as horas de estudo. “Apesar de” tudo pode acontecer…”

Perseverança é uma palavra que define essa jovem corajosa. Quando ninguém esperava mais nada, nem ela mesma, a vida sorriu para ela. E mostrou à concurseira que quando uma coisa é para acontecer, simplesmente acontece. “Depois que caiu a ficha, eu não tinha palavras para definir minha felicidade. Minha família não se aguentava de tanta emoção. Poder proporcionar isso tudo às pessoas que amo foi também uma forma de agradecimento. E também pelo fato de que eu tinha tudo para não passar, os acontecimentos que antecederam a data da prova eram suficientemente grandes para eu não conseguir passar nesse concurso, fora que eu não havia estudado nos últimos dias. Mas essa aprovação serviu como uma forma de retribuição ao meu namorado, uma forma de agradecer por tudo que ele fez por mim e principalmente por ter acreditado que eu seria capaz, acreditado até os últimos segundos de vida…”, lembra.

Foram inúmeras as pessoas que a motivaram e a fizeram seguir emfrente. Hoje, ela tenta levar isso ao maior número de pessoas, e lembra com carinho daquelas com que já teve oportunidade de colaborar nos estudos. “Quando fui aprovada, tive algumas colegas que passaram junto comigo, e outras não. Na época, peguei meu material de estudos e ajudei nas dúvidas daquelas que precisavam do meu apoio. Não houve uma pessoa específica, com o pouco que eu tinha, ajudei quem precisou. Todo mundo merece um pouco de apoio”, comenta.

“Não vou parar” – Hoje em dia, ela usufrui em todos os aspectos da carreira militar, principalmente no que diz respeito à qualidade de vida e à estabilidade financeira. Contudo, a militar deseja desbravar novos caminhos e continuar no universo dos concursos. “Sou feliz e realizada! Tenho a sensação de dever cumprido, e gosto muito do meu ambiente de trabalho. Passei por fases complicadas, mas hoje em dia, adoro o que eu faço e não quero parar por aqui. Curso Administração e não vejo a hora de me formar e voltar a prestar concurso. Não é a hora de parar, e não vou parar”, assegura.

A militar é uma das milhares de pessoas que desejam, correm atrás, choram, riem e vêem o sonho do concurso público virar realidade. Ela é a prova de que não existe sorte, não existe caminho mais curto, e que sempre atrás de um obstáculo existe uma boa notícia. “Sonhos foram feitos para serem realizados! Acostumem-se com os inúmeros obstáculos, eles devem ser superados, não deixem nada cair no esquecimento. Tudo é um aprendizado contínuo, o que nos “leva além” é o apoio das pessoas que realmente amamos e nos querem bem. Aprovação é a soma de sonho, esforço e perseverança. Hoje posso afirmar que não existe mágica, existe estudo. Sou uma vencedora!”, finaliza.

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