Superação: Ex-catadora de latinhas passou em concurso do TJ - Portal de notícias CERS

Superação: Ex-catadora de latinhas passou em concurso do TJ

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Atualizado em 18/08/2014 - 01:04

Por Ana Laranjeira       
Com informações do G1

Marilene Lopes viu a vida dela e a da família mudar depois de ler na capa de um jornal sobre abertura das inscrições para o concurso do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Uma história emocionante de luta e superação contada hoje pelo site G1 e que o CERS reproduz agora, por se tratar de um exemplo para quem deseja conquistar grandes sonhos.

A personagem dessa história surpreendente era catadora de latinhas no Distrito Federal e estudou 25 dias para o concurso de nível médio do Tribunal de Justiça. Contra todas as probabilidades, ela passou, e trocou uma renda mensal de R$50 por um salário de R$ 7 mil.

Em uma retrospectiva, vamos contar como isso foi possível:

Vítima de uma má formação congênita (lábio leporino), mãe de cinco filhos, sem dinheiro nem para comprar gás e obrigada a cozinhar com gravetos, Marilene Lopes ganhava R$ 50 por mês catando latinhas em Brazlândia, a cerca de 30 quilômetros de Brasília.

Já havia sido agente de saúde e doméstica, mas perdeu o emprego por causa das vezes em que faltou para cuidar das crianças. Como os meninos eram impedidos de entrar na creche se estivessem com os pés sujos, ela comprou um carrinho de mão para levá-los e aproveitou para unir o útil ao agradável: na volta, catava as latinhas de alumínio.

Durante 25 dias em que precisou ficar de repouso por conta de uma cirurgia para correção do lábio leporino, Marilene ficou na casa da mãe. “Minha mãe disse que, se eu fosse operar, ela cuidava dos meninos, então fui para a casa dela. Ela comprou uma apostila para as minhas irmãs, aí dei a ideia de formarmos um grupo de estudo. Íamos de 8h às 12h, 14h às 18h e de 19h às 23h30. Depois eu seguia sozinha até as 2h”, explica.

Segundo ela, a situação durou um ano e meio, e na época a família passava muita fome. “Nunca tinha nem fruta para comer. Eu me lembro que passei um ano com uma só calcinha. Tomava banho, lavava e dormia sem, até secar, para vestir no outro dia. Roupas, sapato, bicicleta, os filhos só puderam ter depois da aprovação no concurso. Nunca tive uma bicicleta”, conta.

Em 2001, viu na capa de um jornal a abertura das inscrições para o concurso do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Mesmo para se inscrever na prova Marilene precisou pedir R$ 5 a cada amigo. Chegou à agência bancária dez minutos antes do fechamento, no último dia do pagamento. E o resultado foi informado por uma das irmãs, que leu o nome dela no jornal.

Ganhando atualmente R$ 7 mil, a técnica judiciária garante que não tem vergonha do passado e que depois de formar os cinco filhos pretende ingressar na faculdade de direito. “meus filhos têm muito orgulho de mim, da nossa luta. Eles querem seguir meu exemplo”, diz ela.

O esforço de quase 12 anos atrás ainda tem lugar especial na memória da família. “Quando passei, foi como se Deus me falasse “calma, o deserto acabou”.”

Marilene já passou pelo Juizado Especial de Competência Geral, 2ª Vara Cível, Órfãos e Sucessões de Sobradinho, 2ª Vara Criminal de Ceilândia, 12ª Vara Cível de Brasília e Contadoria. A trajetória dela inspira os colegas. Por e-mail, o primeiro chefe, o analista Josias D”Olival Junior, é só elogios. “A sua história de vida, a sua garra e o seu caráter nos tocavam e nos inspiravam profundamente.”

Muitas dificuldades 
Após a aprovação, o primeiro problema enfrentado por Marilene veio na posse do concurso. A cerimônia ocorreu três dias após o nascimento do quinto filho, em um parto complicado. A médica não queria liberá-la para a prova, mas só consentiu com a garantia de que ela voltaria até 18h30. Por causa do trânsito, a catadora se atrasou em uma hora.

“A médica chamou a polícia dizendo que eu tinha abandonado meu filho. É que eu estava de alta, mas o bebê não, e ele precisava tomar leite no berçário enquanto eu estivesse fora”, lembra. “A enfermeira ligou para a polícia do hospital e explicou a situação e aí pararam de me procurar. A médica me deixou com o problema e foi embora, no término do plantão dela.”

Resolvida a situação, Marilene e a família viveram bem até 2003, quando o marido resolveu sair de casa. O homem, que já havia sido preso por porte ilegal de arma, havia “se deslumbrado” com a situação econômica da mulher. A casa e o carro comprados a partir do salário do tribunal precisaram ser divididos.

 

Atualmente, ela mora com os filhos na casa de um amigo, na Estrutural, enquanto aguarda a entrega de um apartamento de três quartos em Águas Claras. Marilene tem uma moto e, junto com uma das irmãs, está pagando um consórcio para comprar um carro zero.

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