Monitoramento de cortadores de cana revela que ambiente e produção elevam cansaço físico - Portal de notícias CERS

Monitoramento de cortadores de cana revela que ambiente e produção elevam cansaço físico

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Atualizado em 18/08/2014 - 01:04

Em 10 minutos, um trabalhador derruba 400 quilos de cana, desfere 131 golpes de podão e faz 138 flexões de coluna. O trabalho é feito em temperatura superior a 27º C, com fuligem no ar e, ao final do dia, o cortador terá ingerido mais de 7,8 litros de água, em média, desferido 3.792 golpes de podão e feito 3.994 flexões com rotação da coluna. A carga cardiovascular é alta, acima de 40%, e em momentos de pico os batimentos cardíacos chegam a 200 por minuto.

Estes são alguns dados de um estudo científico feito durante dois anos com um grupo de trabalhadores no corte de cana da região de Piracicaba (SP) por pesquisadores do Centro de Referência de Saúde do Trabalhador (Cerest) e pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). O estudo foi apresentado no seminário "Condições de Trabalho no Plantio e Corte de Cana" realizado na Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região (Campinas/SP).

O trabalho está concluído, aguardando publicação em revista científica, e depois servirá de fundamento para ações de auditores fiscais e procuradores do Trabalho nos procedimentos do setor sucroalcooleiro. "Existem cerca de 30 fatores causais para um acidente de trabalho. O setor canavieiro tem alto índice de acidentes e até mortes por desgaste no trabalho do corte manual de cana. O trabalho não pode ser fonte de doenças e mortes", afirmou o pesquisador Rodolfo Vilela.

O seminário

Foram dois dias de palestras e debates envolvendo todos os detalhes das atividades de plantio e corte de cana e experiências de procuradores e auditores fiscais do Grupo Móvel de Fiscalização Rural do Ministério do Trabalho e Emprego.

"Idealizamos o seminário preocupados em oferecer respostas às inóspitas condições de trabalho das pessoas que plantam e cortam cana. Não queremos mais ver jovens brasileiros perderem suas vidas. Se o etanol é hoje um dos nossos produtos mais divulgados no exterior, não levará consigo a chaga do descaso com aqueles que entregam suas forças na primeira etapa da linha de produção", disse a procuradora-chefe, Eleonora Bordini
Coca, ao abrir o seminário.

O coordenador do grupo móvel, Roberto Martins Figueiredo, apresentou números de atuação e as conclusões da fiscalização no Estado de São Paulo. Em 2007, foram realizadas 14 operações em 179 empresas de 96 Municípios e emitidos 949 autos de infração, com alcance de 89.032 trabalhadores, dos quais 1.779 irregulares, todos devidamente registrados após as ações.

Estima-se que no Estado de São Paulo existam em torno de 140 usinas em operação, com 400 mil trabalhadores. Somente o grupo Cosan possui 18 unidades e cerca de 40 mil trabalhadores. "A precariedade do trabalho nas frentes de corte de cana manual é caracterizada pela falta de fornecimento de água potável, abrigo para intempéries, sanitários, gestão de segurança, e de equipamentos de proteção individual e sua
reposição" conclui Figueiredo. 

No seminário, o procurador Luís Henrique Rafael, do Ofício de Bauru, apresentou o "kit fraude", um conjunto de documentos usados por pequenas empresas criadas para terceirização do corte de cana, destinado a burlar a legislação.
"Terceirização é sinônimo de precarização", afirmou.Rafael falou das condições dos alojamentos, do transporte precário, revelou as táticas das empresas e dos gatos para burlar a fiscalização e mostrou um o precário instrumento utilizado para medir a produção de cada trabalhador (compasso de medição).

O procurador Jonas Ratier Moreno, coordenador nacional de combate ao trabalho escravo,  relatou o que viu nas lavouras de Alagoas, primeiro Estado a receber a força-tarefa criada para combater irregularidades no setor sucroalcooleiro. "Os trabalhadores são transportados na carroceria de caminhões velhos junto a animais e ferramentas. O mesmo caminhão é usado para transportar a cana. Encontramos muitos adolescentes de 14 anos nas lavouras de cana".

Proferiram palestras e participaram dos debates os procuradores do Trabalho: Marcelo José Fernandes da Silva, da 1ª Região; Geraldo Emediato de Souza, da 3ª Região; Cássio Calvilani Dalla Déa, do Ofício de Araraquara; José Fernando Ruiz Maturana, do Ofício de Bauru; Iros Reichmann Losso, da 9ª Região; Alvamari Cassillo Tebet e Ronaldo José de Lira, da 15ª Região. Para todos, a solução do problema passa invariavelmente pela maior intensidade das fiscalizações.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região (Campinas/SP) 

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