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Exemplo de vida: Ex-moradora de rua passa em concurso

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Atualizado em 18/08/2014 - 01:04

Por Ana Laranjeira

Acompanho diariamente a jornada de estudos dos alunos do CERS e percebo o quanto é difícil abdicar do tempo de lazer, com a família e, até mesmo, abrir mão de uma carreira profissional no setor privado para apostar tudo no sonho de passar em um concurso público.

Lendo ontem o Jornal do Commercio (Recife), me deparei com uma história de luta e determinação que deve servir de exemplo para muitos. Para os que pensam remotamente em desistir, pensem melhor. A vida de Dinorá do Rocio Vieira tem algo a te dizer.

Matéria de capa publicada no Jornal do Commercio (Recife) em 09.10.2012   
Distante mais de três mil quilômetros da terra natal, Dinorá do Rocio Vieira, 51 anos, persegue com muita luta e determinação um recomeço na capital pernambucana. Em junho de 2011, abandonou Curitiba, no Paraná, rompeu laços afetivos e partiu para terras mais quentes, como ela mesmo define, em busca de uma nova vida. Depois de morar na rua e passar por um abrigo, a curitibana hoje comemora a aprovação em 12º lugar no concurso público para atendente de copa e cozinha do Serviço Social do Comércio (Sesc). A vaga foi disputada com mais de três mil candidatos.

Após percorrer as cidades de Palmas, no Tocantins, e Maceió, em Alagoas, Dinorá chegou ao Recife com ambição de trabalhar na região de Suape, no Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, mas frustrou-se com as constantes negativas de emprego. Sem dinheiro, residência ou parentes, ela transformou as ruas e a Estação do Metrô do Centro em moradia, até que garis indicaram a Casa de Acolhida O Recomeço, em Campo Grande. O lugar recebe mulheres, com ou sem filhos, entre 18 e 59 anos. Atualmente, 36 pessoas compartilham o mesmo teto.

Quando chegou ao espaço, Dinorá trazia consigo uma mochila com agenda, documentos, dois livros e uma bermuda. A autoestima estava destruída e sua maior vulnerabilidade não era financeira, mas emocional. Apesar das adversidades, ela frisa que nunca se envolveu com drogas ou atos ilegais. “Sempre acreditei no caminho da honestidade.”

A curitibana é fruto de uma família desestruturada. Logo cedo precisou lidar com perdas. Primeiro o pai, que não assumiu a paternidade, depois a mãe, que a entregou para uma tia criar, e, por último, a tia, por morte. Para superar as ausências, casou-se com 15 anos e engravidou aos 16. Mas Dinorá só acompanhou a primeira infância dos filhos. O primogênito foi criado pelo pai e a caçula pela avó. No Paraná, ela trabalhou em supermercado e salão de beleza.

“Já vendi picolé, a R$ 0,75, e trabalhei em um lava-jato, mas no fim do mês o dono só quis me pagar metade do salário, porque eu era mulher”, relembra. Para sintetizar os obstáculos vencidos, Dinorá – amante da literatura – faz referência à obra A Divina Comédia, do escritor italiano Dante Alighieri. “Só para quem desce ao inferno, será permitido chegar ao paraíso.”

“Esse é meu recomeço e o trabalho é fundamental, pois agora vou ter minha independência financeira”, afirma. A capacitação para o novo emprego, no Shopping RioMar (novo grande empreendimento da cidade), terá início no próximo dia 16. “Minha meta agora é aprender inglês para atender melhor as pessoas”, acrescenta.

Segundo a gerente operacional da casa, Micheline Sales, Dinorá não acreditava em si mesma quando chegou ao abrigo.

“Vimos que ela tinha potencial, então apostamos e acertamos. O que fizemos foi garantir a ela os direitos de cidadã e ajudá-la a se reestruturar emocionalmente para se inserir novamente no mercado de trabalho”, explica Micheline. “O medo paralisa, mas o recomeço é possível. O importante é não desistir”, ensina Dinorá.

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