Candidatos apelam para o uso de tarja preta para "render mais" - Portal de notícias CERS

Candidatos apelam para o uso de tarja preta para “render mais”

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Atualizado em 18/08/2014 - 01:04


Postado por Ana Laranjeira      
Fonte: G1


Medicamentos de tarja preta que têm como substância ativa o cloridrato de
metilfenidato, estimulante do sistema nervoso central, estão sendo consumidos
por estudantes de concursos, conforme relatos de concurseiros e ex-concurseiros. O
objetivo é contar com a ajuda da substância para passar muitas horas
diárias concentrados na preparação para provas. Na medicina, a
droga é usada para reduzir impulsividade e hiperatividade de pessoas com
transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH),
especialmente crianças.


O tema do uso de medicamentos para suportar a pressão da concorrência e
estudar por muitas horas é velado entre os candidatos. Concurseiros e
ex-concurseiros de São Paulo, Brasília e Salvador afirmam, sob a
condição de não serem identificados na reportagem, que o uso de
remédios com esse princípio ativo é comum entre os colegas que
estudam em cursinhos preparatórios para concursos. Na opinião de
médicos, no entanto, a substância não resulta em um aumento da
concentração e dá uma falsa sensação de
aproveitamento do tempo de estudo.


Um funcionário público do Distrito Federal ouvido pela reportagem admite
ter usado o remédio Ritalina, fabricado pelo laboratório Novartis, que
contém o metilfenidato. Ele afirma que decidiu tomar o medicamento após
uma amiga contar que usava a substância para controlar a hiperatividade e se
concentrar melhor no que estava fazendo. Um colega do cursinho também havia dito
que conseguia passar mais horas estudando graças ao remédio. Mas sua
própria experiência, segundo ele, foi negativa.


O servidor conta que procurou um psiquiatra porque se sentia hiperativo, agitado e com
dificuldade geral de se concentrar. Na primeira e única consulta com o
médico, ele relatou seus sintomas e já saiu do consultório com a
prescrição do medicamento em mãos. O então candidato nem
precisou pagar pelo remédio – o Sistema Único de Saúde (SUS)
distribui o medicamento gratuitamente, mediante apresentação da receita
controlada. Ele afirma que não tinha como objetivo melhorar seu desempenho nos
estudos com o uso do medicamento.


“Eu queria estudar para concurso também, e o médico me falou que eu era
hiperativo e receitou o medicamento para eu experimentar”, relembra. “Particularmente
não gostei. O resultado não foi bom, a concentração
não melhorou, fiquei mais agitado, me deu falta de ar”, conta.


O servidor passou em um concurso público há 3 anos, mas sem a ajuda da
Ritalina, que ele parou de tomar depois de apenas duas semanas. Ele afirma ter parentes
com síndrome do pânico e já ter presenciado experiências com
falta de ar e, por isso, não quis passar pela mesma situação.
“Eu já estava estudando para concurso e não aconteceu nada,
não senti diferença, só ficava um pouco mais agitado e mais
acelerado. Cada um tem sua escolha, não recrimino. Para muitas pessoas, controla
mesmo [a hiperatividade], mas para mim não foi legal.”


'É estranho render bem todos os
dias'     


Uma advogada de São Paulo, de 30 anos, relata que seu psiquiatra ofereceu a
receita de Ritalina, mas que ela recusou porque já tratava outra doença e
não queria misturar os remédios. Entre 2007 e 2009, ela passou por quatro
cursinhos na capital paulista e afirma que, em todos, é comum ver candidatos que
não resistiram à tentação de usar o atalho do
anfetamínico para não se distrair.


“Você passa dez horas por dia de segunda a sábado lá.
São cinco horas de aula e seis horas em casa. Eu tinha aula de manhã, ia
para casa, almoçava, saía para fazer exercício, voltava, dormia e
às 16h30 ia para o cursinho estudar de novo”, conta ela, que acabou passando em
um concurso em outra cidade e, depois, decidiu trabalhar no setor privado.


Segundo a advogada, a enorme concorrência, os altos salários, a
estabilidade laboral e as provas massacrantes mexem com os candidatos. “São 100
questões com cinco alternativas e 20 linhas em cada uma, é uma
página por questão, vocês precisa de alguma coisa pra te fazer
aguentar. Não se fala disso entre amigos, o professor entra na sala, dá a
aula e sai. As pessoas não falam sobre isso abertamente, mas é normal,
é muito comum”, afirma.


Quem convive muito tempo nesta situação consegue perceber quando
alguém tem o comportamento alterado pelo uso de estimulantes. “Por mais que
você esteja acostumado a estudar e tenha a disciplina, em um dia você rende
bem, mas é estranho render bem todos os dias. Você cansa, troca a caneta
de mão, vai ao banheiro. O remédio te dá a força para ficar
sentado sem se cansar durante quatro horas seguidas”, diz.


Comércio ilegal        



A tentação acaba fazendo com que as pessoas sem acesso a psiquiatras
recorram ao comércio ilegal de medicamentos. De acordo com o Departamento de
Polícia de Proteção à Cidadania do governo estadual
paulista, neste ano, a ritalina apareceu, pela primeira vez, entre os remédios
apreendidos nas operações policiais.


Segundo Paulo Alberto Mendes Pereira, delegado-assistente da 2ª Delegacia de
Saúde Pública da capital, uma operação de 5 meses, que
monitorou conversas telefônicas e emails, culminou, em maio passado, com a
prisão de 7 pessoas acusadas de vender medicamentos com comércio proibido
ou controlado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa). “Nós identificamos pessoas que compraram o medicamento de forma
clandestina e já ouvimos alguns que disseram que era para o filho. Mas recebemos
essa informação com reserva, porque a pessoa que vai comprar um produto
controlado, para o filho, faz isso de maneira legal, com receituário”, diz o
policial.


Comprar um medicamento que exige receita de forma clandestina pode configurar porte de
entorpecente para uso próprio, alerta Pereira.


Efeitos colaterais     


Segundo relatório da Anvisa, o metilfenidato pode apresentar como efeitos
colaterais a redução de apetite, insônia, dor abdominal e cefaleia.
Em nota, a Novartis esclarece que “o medicamento metilfenidato –
comercializado pela Novartis com o nome comercial de Ritalina – somente deve ser
utilizado conforme as indicações em bula, devidamente aprovadas pelas
autoridades sanitárias, e mediante a prescrição de um
médico. A empresa repudia veementemente o uso indevido do medicamento que, no
Brasil, só pode ser vendido mediante a apresentação e
retenção de receita do tipo A (amarelo), que é a mais restritiva
entre todas, sendo, inclusive, monitorada pela Polícia Federal. O metilfenidato
é a terapia mais estudada do mundo para o tratamento do transtorno de
déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e tem eficácia
comprovada em mais de 200 estudos científicos publicados”.


O TDAH é reconhecido majoritariamente em crianças, principalmente por
causa do desempenho escolar. A doença não é diagnosticada por meio
de exames clínicos, e sim pela observação do comportamento das
pessoas, o que faz com que parte da classe médica afirme que ela não
exista de fato.


O remédio, no entanto, vem sendo cada vez mais usado por adultos em
situações estressantes. Entre 2000 e 2009, o Brasil saltou para a segunda
posição no ranking mundial de consumo da substância, atrás
apenas dos Estados Unidos. Nesse período, a venda de caixas subiu de 70 mil para
dois milhões.


Segundo a Anvisa, o metilfenidato é um medicamento de uso controlado, e as
drogarias precisam registrar no sistema a venda de cada caixa. Ainda de acordo com a
Anvisa, em 2009, o Brasil consumiu quase 175 quilos do cloridrato de metilfenidato,
usado na fabricação da Ritalina, pelo laboratório Novartis, e do
Concerta, pelo laboratório Janssen Cilag. Entre 2002 e 2006, a
produção da substância no Brasil cresceu 465%.


A agência monitora sites com venda ilegal de produtos controlados e propaganda
enganosa, mas a assessoria de imprensa da Anvisa afirma que a agência não
mantém estatísticas específicas sobre o mercado irregular de uma
substância específica. Os concurseiros afirmam que é comum a compra
do medicamento pela internet.


Rendimento intelectual reduzido
     

Médicos garantem que, apesar de as substâncias estimulantes afastarem o
sono, o rendimento intelectual é reduzido e a retenção de
informação de quem as utiliza também fica prejudicada. “A
pessoa fica sem sono para poder estudar mais, por mais tempo.


Mas, apesar de ficar acordada, o rendimento intelectual não é o
adequado”, diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de
Orientação e Atendimento ao Dependente (Proad) da Universidade Federal de
São Paulo (Unifesp). “O remédio prejudica a
concentração, a memória e sua capacidade de reter
informação vão ficar diminuídas.” Segundo ele,
há mais de 20 fórmulas, manipuladas ou não, disponíveis no
mercado.


De uso controlado, as substâncias causam dependência e não podem ser
utilizadas sem orientação médica. Os efeitos colaterais são
graves, segundo Silveira, e incluem crise de pânico, de ansiedade,
depressão e até sintomas psicóticos. “O candidato pode ficar
paranoico, ouvir vozes e passar a interpretar a realidade de forma errônea.
Alguns não conseguem mais dormir.”


Estimulantes e anfetaminas são indicados para pacientes com problemas
neurológicos, como narcolepsia (sono incontrolável durante o dia), casos
de perda de capacidade de concentração ou obesidade
mórbida.


Ronaldo Laranjeira, professor de psiquiatria da Unifesp, afirma que o mecanismo de
ação das anfetaminas é parecido com o da cocaína, com
efeito estimulante intenso. “Na hora que usa, a pessoa se sente mais ativa, mais
alerta, mas nem sempre significa concentração melhor. A performance
não melhora.” A consequência do uso contínuo das anfetaminas,
segundo Laranjeira, é o que os médicos chamam de “efeito rebote”, que,
além da dependência, provoca depressão.

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