A doença do chefe faz mal aos subordinados - Portal de notícias CERS

A doença do chefe faz mal aos subordinados

Por:
Atualizado em 18/08/2014 - 01:04

 
A série sobre doenças ocupacionais, iniciada quinta-feira passada, trata hoje de um problema só recentemente incluído na pauta de saúde do trabalhador mas que é freqüentemente constatado

Quem disse que doença do trabalho é só coisa de subordinado e relacionada apenas à exposição de produtos tóxicos, atividades de risco ou posições estáticas e repetitivas? Os chefes também adoecem e, o pior, fazem adoecer emocionalmente seus inferiores. O mal que os atinge e prejudica em cheio os outros é considerado problema de comportamento: assédio moral, que requer acompanhamento psicológico e até psiquiátrico.
No Centro de Referência em Saúde do Trabalhador do Recife, é uma das queixas mais freqüentes, depois das lesões em ossos e tendões. Esse tipo de assédio é a perseguição, o constrangimento, o preconceito e a humilhação sofrida pelo trabalhador. Geralmente, é praticada pelo superior hierárquico.
Numa pesquisa nacional, concluída em 2006 pela Confederação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, e que ouviu bancários de Pernambuco, 38,9% dos 2.609 profissionais entrevistados relataram ter vivido situação constrangedora. “As mulheres, os homossexuais e as pessoas com limitação física ou problema de saúde são as mais freqüentes vítimas”, diz, baseado nos resultados, João Rufino. Ele é membro do Conselho de Saúde de Pernambuco (fórum da sociedade que faz o controle do SUS) e secretário de Saúde do Trabalhador do Sindicato dos Bancários.
A pesquisa mostrou que, em 63,71% dos casos, o assediador era o superior hierárquico. Menos de 18% apontaram um colega e 10,78% atribuíram a agressão à turma inteira. A freqüência predominante das agressões é grande: 51,49% disseram sofrer o assédio várias vezes por semana e 27,86% relataram pelo menos uma vez a cada sete dias.
E como são essas perseguições? “O agressor torna o trabalhador invisível no ambiente, faz cobranças indevidas, o humilha perante os outros ou dá mais serviço do que ele teria condições de executar para provocá-lo depois”, conta Rufino. Num dos casos acompanhados por ele, a gerente regional de um banco pressionava diariamente seus gerentes por telefone e e-mails e ainda instituiu o prêmio mico. “O gerente com pior rendimento era obrigado a assumir diante dos outros que era um incompetente e erguia como troféu um carrinho de plástico”, esclarece. Seis subordinados pediram demissão, moveram ação por danos morais e a antiga chefe foi substituída na empresa. Outras agressões se manifestam com apelidos e campanhas internas para desqualificar o profissional.
Walter Nascimento, da Sociedade de Medicina do Trabalho e médico do Serviço Social da Indústria (Sesi) em Pernambuco, também ouve relatos do problema. “Quem é assediado sai para o trabalho como se fosse para um castigo”, diz. Ameaças de demissão e até limitar o tempo que o empregado ia ao banheiro foram algumas das situações em que ele teve de intervir.
Procurar o médico do trabalho, ensina Walter Nascimento, é o melhor caminho para quem se sente pressionado. “Ele vai intermediar a situação”, explica. Numa dessas experiências, sua intervenção foi reconhecida pelo assediador. “Ele veio me agradecer depois.” Com o psicológico, descobriu que outros problemas o faziam agir errado.
 
 
 
É melhor prevenir do que tratar

Quem acompanha assédio moral defende que prevenir o problema é a solução mais inteligente. Ela passa pela conscientização de empresas, gestores e empregados. É que as conseqüências são danosas a todos os três envolvidos. “Mais de 90% das vítimas sofrem de depressão”, afirma o médico do trabalho Walter Nascimento. Segundo ele, o problema induz ao maior consumo de álcool, uso de psicotrópicos e drogas, além de aumentar a vulnerabilidade a acidentes, por causa da perda da concentração.
Na última pesquisa nacional com os bancários, realizada em 2006, mais de 60% dos assediados disseram se sentir nervosos, tensos ou preocupados. Quase metade dormia mal, 37,37% tinham dores de cabeça constantes, proporção um pouco maior falou de tristeza, 36% sentiam-se cansados ou sem satisfação para executar tarefas. Má digestão, falta de apetite, dificuldade para raciocinar e ausência de interesse pela vida completaram os relatos dos perseguidos. Os chefes chegam ansiosos e hipertensos ao médico.
“Muitos vêm ao consultório reclamando, querendo voltar para o trabalho”, conta Walter Nascimento. Ele defende seleção mais criteriosa de chefes. “Deve saber respeitar o próximo, ter consciência de que não é onipontente e saber que só o trabalho em equipe traz resultados.” Todo trabalhador também precisa de lazer e tempo para o convívio familiar, diz. Isso ajuda nos relacionamentos na empresa.
A psicóloga Lívia Sant’ana, gerente de projetos da Fundação Dom Cabral (MG), que falará para executivos sobre perfil de líderes, na próxima semana em São Paulo no Saúde Business, explica que todo chefe tem que estar preparado para gerir pessoas. “Um gestor de pessoas saudável é o que considera o outro adulto, responsável e qualificado para a função. Se a pessoa não atingir o esperado e não estiver bem adaptada no ambiente, cabe ao gestor capacitá-la, orientá-la e conduzi-la para isso.”
Buscar direitos é orientação dos sindicatos, mas o secretário de Saúde do Trabalhador dos bancários, João Rufino, esclarece que a campanha liderada pelo sindicato pernambucano estimula a prevenção. “É dever das instituições e dos gerentes zelar pelo ambiente saudável”, lembra. Pernambuco é o primeiro Estado com lei regulamentada (a 13.314/07) que coíbe e pune assédio moral no serviço público estadual. Os trabalhadores da iniciativa privada têm processado assediadores, requerendo indenização por danos morais.
Veronica Almeida
valmeida@jc.com.br
 
Jornal do Commercio/Cidades
www.jc.com.br/cidades

Tags relacionadas:

COMENTÁRIOS